Programa projeta fisionomia de brasileiro sumido no Peru há 3 anos

Raquel Morais

Do G1 DF

Imagens feitas peloa Polícia Civil com programa de computador mostram como poderia estar a fisionomia de Artur Pachoali (Foto: Polícia Civil/Divulgação)
Imagens feitas peloa Polícia Civil com programa de computador mostram como poderia estar a fisionomia de Artur Pachoali (Foto: Polícia Civil/Divulgação)

A pedido da família, a Polícia Civil do Distrito Federal elaborou 20 imagens mostrando como o estudante Artur Paschoali deve estar atualmente, três anos após desaparecer no Peru. A progressão de idade, feita com um programa de computador, considera diversas possibilidades: com ou sem barba; usando cabelo curto, comprido ou dreads; tendo ou não óculos. A ideia é que as imagens auxiliem a corporação peruana nas buscas pelo jovem.

Quando estivemos em Santa Teresa [cidade peruana onde Artur sumiu] pela primeira vez, vi que havia uma foto no boletim de ocorrência. Perguntei de onde vinha a foto, e me disseram que quem levou a foto foi quem fez o boletim de ocorrência, o dono do restaurante onde ele estava trabalhando”
Wanderlan Vieira, pai de Artur Paschoali

O pai dele, Wanderlan Vieira viajou pela sexta vez ao país na madrugada do último domingo (29) para cobrar a apuração do caso. Ele quer o resultado do exame de DNA do sangue achado na casa do ex-chefe do jovem em agosto, a divulgação das fotos do rapaz encontradas na câmera do ex-patrão e maior empenho das autoridades no caso.

O homem está acompanhado dos deputados distritais que presidem a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa (Ricardo Vale e Washington Luiz), dois policiais civis e um segurança. É a primeira vez que a viagem é custeada pelo governo

“Tudo continua parado. Não nos foi dada nenhuma notícia nova [em relação às fotos]. Em relação ao DNA, a mesma coisa”, disse. O grupo retorna ao Brasil neste sábado.

Os pais suspeitam que o ex-chefe tenha envolvimento com o desaparecimento do rapaz. O estudante trabalhou para o comerciante enquanto passou uma temporada em Santa Teresa, em uma montanha ao lado de Águas Calientes, ponto turístico que leva a Machu Picchu. Artur gostou da cidade e logo arrumou um emprego em um bar. O sumiço foi registrado oito dias após a chegada dele à cidade.

A comitiva teve agenda cheia no país. Fpram agendados encontros com o ministro do Interior (equivalente à autoridade máxima da polícia), o cônsul, o embaixador do Brasil no Peru e o defensor Del Pueblo (equivalente ao defensor dos Direitos Humanos) e o presidente dos fiscais de Cuzco (equivalente ao chefe dos promotores).

Fotos inéditas
A polícia peruana comunicou no início do mês ter recuperado imagens inéditas de Artur. As fotos estavam na câmera do ex-chefe e ainda não foram divulgadas à família. Para o pai, o equipamento só foi periciado porque a família insistiu.

“Quando estivemos em Santa Teresa [cidade peruana onde Artur sumiu] pela primeira vez, vi que havia uma foto no boletim de ocorrência. Perguntei de onde vinha a foto, e me disseram que quem levou a foto foi quem fez o boletim de ocorrência, o dono do restaurante onde ele estava trabalhando.”

“Eu disse ao policial que eu gostaria de visualizar as imagens que estavam contidas na câmera”, disse o pai. “Já estava desconfiado que alguma coisa não estava batendo. Imaginei que poderia ter alguma imagem que comprometia o ex-chefe, que disse que a única foto que tinha do Artur era justamente a foto que ele apresentou na delegacia.”

O equipamento foi encaminhado a um laboratório de alta tecnologia em Lima, capital do Peru, ainda no final de 2012, com 594 imagens. Segundo Vieira, o ex-chefe do estudante disse que deletou as com numeração imediatamente anterior e posterior à foto de Arthur levada à delegacia porque não tinha interesse em mantê-las.

A polícia peruana anunciou no dia 9 de novembro que conseguiu recuperar 102 imagens. Dessas, apenas duas abriram no computador da corporação. Elas mostram Artur brincando com o filho do ex-chefe, que na época tinha 2 anos.

“Tem três meses que a perícia está pronta, mas só agora fomos informados. E só conseguiram abrir duas das imagens recuperadas. Não sabem explicar o motivo, talvez por um problema de software. O fiscal aguarda alguém que entenda de informática para tentar ver as outras imagens. Nós mesmos ainda não vimos”, disse o pai de Arthur.e

Vieira diz acreditar que vai enfrentar nova “saga” para obter resultados e relata dificuldades junto à polícia peruana e ao Itamaraty para prosseguir com as investigações. Para o pai, as fotos podem ajudar a revelar o que aconteceu com Artur.

Os pais só terão acesso às imagens depois que os fiscais conseguirem abrir todos os arquivos. As imagens serão acessadas na frente do advogado da família, da defesa do ex-chefe e de um policial peruano. Não há previsão para que isso aconteça.

Gastos
Segundo Vieira, a família já gastou R$ 230 mil na tentativa de encontrar o filho. Apesar das dificuldades financeiras, os pais dizem que não vão desistir de descobrir o que aconteceu.

“Eu vendi uma lanchonete, minha esposa já está no limite dos empréstimos dela, tudo para tentar saber o que se passou. O que nós sentimos é que há uma incompetência muito grande na realização de atividades muitos simples”, afirma.

Eu vendi uma lanchonete, minha esposa já está no limite dos empréstimos dela, tudo para tentar saber o que se passou. O que nós sentimos é que há uma incompetência muito grande na realização de atividades muitos simples”
Wanderlan Vieira

“Demoraram quase três anos para fazer isso, para recuperar fotos. Minha angústia maior é com esse DNA, que já está sendo deteriorado e ainda não tem resultado”, diz Vieiera.

Sangue
A família do estudante brasiliense conseguiu que a polícia peruana investigasse o caso como delito criminoso – e não como desaparecimento de pessoa. Com a retomada das investigações, a polícia encontrou vestígios de sangue na casa do dono do bar para quem Paschoali trabalhava antes de sumir.

As manchas foram descobertas com o uso de luminol, sustância que, quando borrifada no ambiente, aponta resquícios de sangue, mesmo que elas já tenham sido removidas. Durante o procedimento, a polícia descobriu uma poça de sangue de dois metros quadrados. O resultado da análise do material deveria sair neste mês.

Para a família do jovem, que tinha 19 anos à época do desaparecimento, a prova é mais uma evidência do que moradores da região já vinham indicando: que o estudante sofreu agressões e pode ter sido assassinado na região.

O irmão do rapaz, Felipe Paschoali, diz que testemunhas relataram terem ouvido pedidos de socorro vindo de dentro da casa na época em que ele desapareceu.

“Uma senhora que vinha de uma igreja evangélica, próximo da data em que o Artur sumiu, ouviu gritos nessa casinha, que fica próxima a um cemitério. Era um grito de ajuda, pedindo socorro, como se tivesse alguém realmente apanhando”, diz.

“Após quase três anos, conseguimos fazer um teste de luminol para conseguir detectar sangue nessa casa, e foram encontradas manchas de sangue no chão e na porta, com sinais inclusive de arrastamento.”

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