Potências e Irã definem diminuição de capacidade nuclear iraniana

Da esquerda: Federica Mogherini (representante de assuntos exteriores da UE),  Mohammad Javad Zarif (ministro do extereior iraniano), Philip Hammond (secretário do exterior britânico) e John Kerry (secretário de Estado americano) (Foto: AP)
Da esquerda: Federica Mogherini (representante de assuntos exteriores da UE), Mohammad Javad Zarif (ministro do extereior iraniano), Philip Hammond (secretário do exterior britânico) e John Kerry (secretário de Estado americano) (Foto: AP)

O grupo 5+1, integrado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, Grã-Bretanha, Rússia, China, França) e a Alemanha, concordaram com o Irãnesta quinta-feira (2) que a capacidade nuclear deste país será limitada, anunciou Federica Mogherini, chefe da diplomacia europeia.

Mogherini disse que os países reunidos em Lausanne acordaram soluções que criam bases para um acordo nuclear futuro, que será negociado até o dia 30 de junho. Ela também afirmou que o cumprimento do acordo suspenderia as sanções dos EUA e da UE relacionadas à questão nuclear e aplicadas contra o Irã. Ainda disse que o programa nuclear iraniano deverá ser supervisionado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

“Um passo decisivo foi alcançado”, disse Mogherini em pronunciamento para a imprensa. O futuro acordo entre o Irã e as potênciasserá respaldado por uma resolução no Conselho de Segurança da ONU, segundo disse.

Os países estavam reunidos há vários dias em Lausanne, na Suíça, para esboçar os princípios de um acordo. A comunidade internacional quer frear o programa nuclear iraniano e controlar de perto para garantir que Teerã não fabricará armas nucleares e bomba atômica. O impasse entre o Irã e o Ocidente acerca do tema já dura quase 12 anos.

Mogherini declarou ainda que o projeto de um novo reator será alterado de modo que nenhum plutônio para armas possa ser produzido.

Parâmetros
Em seguida, o secretário de Estado americano, John Kerry, anunciou alguns parâmetros específicos que devem ser negociados até o texto final do acordo:
– diminuição de dois terços do número de centrífugas de enriquecimento por 10 anos (de 19 mil para 6 mil centrífugas ativas);
– diminuição dos estoques de urânio enriquecido de 10 mil kg a 300 kg por 15 anos;
– não construção de novas plantas nucleares por 15 anos;
– não enriquecimento de urânio a mais de 3,67% por 15 anos;
– não construção de novos reatores de água pesada por 15 anos;
– fim de enriquecimento na planta de Fordo por 15 anos;
– acesso de inspetores da AIEA às plantas nucleares por 25 anos.

John Kerry, secretário de Estado dos Estados Unidos, faz declaração (Foto: Reuters/Ruben Sprich)
John Kerry, secretário de Estado dos Estados Unidos, faz declaração sobre as bases para um acordo nuclear com o Irã, que deve ser negociado até o final de junho (Foto: Reuters/Ruben Sprich)

“Não vamos aceitar qualquer acordo, vamos aceitar o melhor acordo. E as soluções que alcançamos hoje garantem que cheguemos ao melhor acordo”, disse em pronunciamento na Suíça. Ele tambem afirmou que o acordo será implementado em fases e que as sanções contra o Irã, que serão suspensas quando ele for assinado, poderão voltar se os parâmetros não forem cumpridos.

O ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohamad Javad Zarif, disse que o Irã continuará a enriquecer urânio na planta de Natanz, mas não na de Fordo. Zarif também aifrmou que chegar a um acordo com os países ocidentais não significa que o Irã vai normalizar suas relações com os Estados Unidos.

Zarif ainda afirmou que o acordo permitirá ao Irã participar do mercado internacional de combustível. “O Irã será a partir de agora um ator no mercado internacional de combustível (nuclear). Venderemos urânio enriquecido em troca de urânio natural e esperamos obter dinheiro”, disse.

Segundo fontes diplomáticas ouvidas pela agência Reuters, as potências e o Irã também teriam concordado que a maior parte dos estoques de urânio enriquecido seria diluída ou levada de barco para fora do país, indica a Reuters. No entanto, esses detalhes não foram mencionados no anúncio feito por Mogherini e pelo ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohamad Javad Zarif.

‘É um bom acordo’, diz Obama
Após o anúncio feito na Suíça, o presidente dos Estados Unidos Barack Obama fez pronunciamento na Casa Branca, em Washington, em que afirmou que, com o acordo, a maioria dos estoques de urânio do Irã serão neutralizados e que o programa nuclear do país será monitorado pelos próximos 10 anos. O acordo também significará que as inspeções nas instalações nucleares do Irã serão intensificadas.

Barack Obama faz pronunciamento sobre programa nuclear do Irã (Foto: Reuters/Mike Theiler)
Barack Obama faz pronunciamento sobre programa nuclear do Irã (Foto: Reuters/Mike Theiler)

“Hoje, os Estados Unidos, juntos com nossos aliados e parceiros, atingimos um entendimento histórico com o Irã, que se for completamente implementado, vai impedí-lo de obter uma arma nuclear”, disse Obama.

“É um bom acordo”, afirmou. “Ele fará o nosso país, nossos aliados e nosso mundo mais seguro”. Segundo o presidente, o acordo reduz o atalho do Irã para desenvolver bombas de urânio enriquecido. “[O acordo] é de longe a nossa melhor opção”, disse.

Obama também reforçou que, em resposta ao cumprimento do acordo, a comunidade internacional levantará progressivamente todas as sanções que foram impostas contra o Irã. Segundo o presidente, as sanções foram um fator importante para levar o país à mesa de negociação. No entanto, disse que o alcance de um acordo não acabará com a desconfiança dos Estados Unidos em relação ao Irã.

“Se o Irã trapacear, o mundo saberá”, disse Obama, antes de ressaltar que o acordo alcançado após intensas negociações na Suíça não se baseava na confiança, mas em “verificações sem precedentes”.

Festa em Teerã
Em Teerã, centenas de iranianos foram às ruas na noite desta quinta-feira para comemorar o acordo de princípios sobre o programa nuclear do Irã. Uma parte da grande avenida Vali Asr, que corta a capital iraniana, ficou bloqueada por uma longa fila de veículos. Além do buzinaço dos carros, pedestres cantavam e dançavam na calçada, constatou um repórter da agência France Presse.

Iranianos saíram às ruas de Teerã nesta quinta-feira (2) para comemorar o pré-acordo entre Irã e as potências ocidentais sobre o programa nuclear do país (Foto: AFP PHOTO / ATTA KENARE)
Iranianos saíram às ruas de Teerã nesta quinta-feira (2) para comemorar o pré-acordo entre Irã e as potências ocidentais sobre o programa nuclear do país (Foto: AFP PHOTO / ATTA KENARE)

O aspecto que mais mexe com o dia a dia dos iranianos é a questão das sanções financeiras que abalam a economia do país.

“Qualquer que seja o resultado das negociações, já saímos vencedores”, comemorou o ator Behrang Alavi, de 30 anos, que ficou preso no engarrafamento, mas manteve o sorriso estampado no rosto.

“Agora, poderemos viver normalmente, como o resto do mundo”, disse por sua vez Davoud Ghafari, de 50 anos, impressionado com esse ambiente de carnaval, em um bairro normalmente muito calmo nesta hora da noite.

Veja a repercussão de outras autoridades:
“Isso é muito além do que muito de nós pensávamos ser possível há 18 meses e é uma boa base para o que acredito que poderia ser um acordo muito bom. Mas ainda há mais trabalho para ser feito” – Philip Hammond, secretário britânico de relações exteriores.

“Estamos mais próximos do que nunca de um acordo que torne impossível para o Irã possuir armas nucleares” – Angela Merkel, chanceler alemã.

“Uma solução integral, negociada, à questão nuclear iraniana contribuirá para a paz e a estabilidade na região e permitirá que todos os países cooperem para tratar com urgência os sérios desafios de segurança que muitos enfrentam” – Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU.

“É um passo positivo, mas ao mesmo tempo ainda há questões e detalhes que devem ser resolvidos” – Laurent Fabius, ministro francês de relações exteriores.

“Qualquer acordo deve reduzir significadamente as capacidades nucleares do Irã e deter seu terrorismo e sua agressão” – Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense.

“Os sorrisos em Lausanne estão distantes da realidade miserável em que o Irã se recusa a fazer concessões sobre a questão nuclear e continua a ameaçar Israel e todos os outros países do Oriente Médio.” – Yuval Steinitz, ministro de Assuntos Estratégicos de Isarel.

“Não há dúvida de que o acordo nuclear iraniano terá um impacto positivo sobre a situação geral de segurança no Oriente Médio, incluindo o fato de que o Irã será capaz de participar mais ativamente na resolução de um número de problemas e conflitos na região” – Ministério russo das Relações Exteriores.

Governo brasileiro elogia acordo preliminar
O governo brasileiro afirmou, em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, que recebeu com satisfação o anúncio da definição dos parâmetros para um acordo sobre o programa nuclear iraniano.

Iranianos comemoram em Teerã o pré-acordo entre Irã e as potências ocidentais anunciado nesta quinta-feira (2) (Foto: AFP PHOTO / ATTA KENARE)
Iranianos comemoram em Teerã o pré-acordo entre Irã e as potências ocidentais anunciado nesta quinta-feira (2) (Foto: AFP PHOTO / ATTA KENARE)

“O Brasil saúda a disposição dos governos do Irã e dos países do P5+1, bem como da diplomacia da União Europeia, em perseverar nos esforços para alcançar um acordo satisfatório para todas as partes”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores em nota.

Em maio de 2010, Brasil e Turquia tentaram mediar um acordo para o impasse de mais de uma década ao fechar um pacto de troca de combustível nuclear com o Irã com o objetivo de acalmar as preocupações internacionais sobre as ambições atômicas da República Islâmica.

A iniciativa diplomática foi considerada insuficiente pelas potências e não evitou que o Conselho de Segurança da Organização da ONU aprovasse uma nova rodada de sanções contra o Irã nos dias seguintes ao anúncio do acordo mediado por Brasil e Turquia.

“O governo brasileiro tem consistentemente reiterado que não há alternativa a uma solução negociada para essa questão e que as presentes tratativas constituem oportunidade que deve ser plenamente aproveitada para se chegar a uma solução duradoura sobre a matéria”, afirmou a chancelaria brasileira.

Turquia e Brasil, que à época do acordo eram membros temporários do Conselho de Segurança da ONU, alegaram que o pacto seria motivo suficiente para suspender a discussão sobre novas sanções, o que não ocorreu.

 

Do G1, em São Paulo

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