Pesquisa internacional aponta que causas para epidemia de zika não foram combatidas

Por G1 PE

Uma pesquisa internacional aponta que as mães e as crianças que nasceram com microcefalia estão esquecidas e desprotegidas. O levantamento, realizado pela organização internacional de direitos humanos Human Rights Watch, alerta que as causas que levaram ao surgimento de uma epidemia do vírus da zika não foram combatidas e que a população deve continuar em alerta. O estudo também revela que mães e crianças que nasceram com microcefalia estão esquecidas e desprotegidas.

Depois de chamar a atenção do mundo com uma epidemia até então desconhecida, 2.753 brasileiras contaminadas pelo vírus da zika, que tiveram filhos com microcefalia, compartilham os mesmos dramas e sentimentos. ‘Esquecidas e desprotegidas’, título da mais recente pesquisa sobre o impacto do vírus da zika nas meninas e mulheres no Nordeste do Brasil, tenta traduzir a situação das vítimas do aedes aegypti que deram à luz bebês com uma série de complicações na audição, na visão, nos movimentos e na aprendizagem.

Os pesquisadores entrevistaram 180 pessoas em Pernambuco e na Paraíba, entre mulheres e adolescentes mães de bebês com microcefalia, médicos, profissionais e autoridades do setor da saúde. Segundo o pesquisador João Guilherme Bieber, a pesquisa qualitativa consistiu em entrevistas, com descrição dos principais problemas enfrentados por essas mães, desde acesso a água, saúde reprodutiva e serviço para os filhos, entre outros aspectos.

João Guilherme Bieber e Amanda Klasing são autores da pesquisa internacional (Foto: Reprodução/TV Globo)

João Guilherme Bieber e Amanda Klasing são autores da pesquisa internacional (Foto: Reprodução/TV Globo)

“A pesquisa quer chamar a atenção, dizer que o problema não terminou e que ainda há muito o que ser feito. Além disso, devemos afirmar que os problemas persistem e que necessitam de uma solução imediata pra evitar novos surtos”, disse o pesquisador.

Essa situação é sentida por Vanessa de Assis e Inabela Tavares, mães de bebês com microcefalia. “Na epidemia, foi aquele foco, aquela coisa, todo mundo em cima. Agora, ninguém liga mais. Estamos esquecidos”, diz Vanessa.

Para Inabela, mãe de Graziela Vitória, de 1 ano e sete meses, o sentimento é de desamparo. “É assim que estou me sentindo, e acho que não só eu, mas todas. Desprotegidas”, disse.

Detalhes

O estudo também revela que 35 milhões de brasileiros não tem banheiro em casa. A metade da população não conta com tratamento de esgoto. A dona de casa Kássia Consuelo Carneiro mora no bairro de Socorro, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, onde o esgoto corre a céu aberto. Ela teve zika e o Davi nasceu com microcefalia. Ela confirma que as condições de saneamento são precárias.

“No final do dia, se você chegar aqui, há muitos mosquitos. Nada mudou de dois anos pra cá. Houve poucas melhorias, mas mudança nenhuma. Tudo continua do mesmo jeito”, declarou.

Ela e o filho foram vítimas do vírus da zika e também tiveram chikungunya. A casa dela só é abastecida com água encanada a cada oito dias e, por isso, é preciso armazenar a água da chuva, o que facilita a proliferação dos mosquitos. Ela ajudou os pesquisadores a traçar uma radiografia das condições que tornam os moradores vulneráveis.

Os primeiros bebês que nasceram com microcefalia já está completando 2 anos de idade. Eles não falam, não andam, a maioria não interage e o sacrifício das mães só aumenta, pois as crianças estão crescendo, ficando mais pesadas e a maratona das mães em busca de atendimento para os filhos não para.

Três vezes por semana, Kássia leva Davi, de ônibus, para as terapias das quais ele precisa para se desenvolver. “Tem que ir de braço mesmo. Esses dias eu até passei mal na rua, porque você tem que sair muito cedo, você não consegue ter aquela habilidade. Você tem que parar pra comer, você tem que correr”, diz.

Cobranças

A pesquisa afirma que o Ministério da Saúde se precipitou quando declarou o fim da emergência em saúde pública por causa do vírus da zika, em maio deste ano. Uma das autoras do estudo, a pesquisadora Amanda Klasing disse, em inglês, que apesar do fim da epidemia, a população continua exposta ao risco de novas doenças, já que, embora os casos tenham diminuído, existe a possibilidade de um novo surto de dengue, chikungunya e outras doenças.

Para a União das Mães de Anjos (UMA), o estudo reflete o pedido de socorro das mães e crianças que não querem ser esquecidas. Segundo ela, o que reina é o desrespeito, contra a realidade de mais de 13 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência.

“Na época, o Exército foi posto nas ruas, houve aquela coisa intensa e, de repente esqueceu. Parou. Acabou o mosquito? Acabou o vírus? E por que acabou tudo? A gente se sente como se tivesse num buraco profundo, querendo sair dali, gritando. Vendo as pessoas passando e ninguém nos escuta”, disse Germana Soares, presidente da UMA.

Infestação

 Aedes Aegypti é vetor da dengue, chikungunya e zika (Foto: Divulgação)

Aedes Aegypti é vetor da dengue, chikungunya e zika (Foto: Divulgação)

Uma atualização do terceiro Levantamento de Índice Rápido do Aedes aegypti (LIRAa), divulgada pela Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco (SES), revela que 99 dos 184 municípios pernambucanos estão em situação de risco para as arboviroses. Ao todo, 88% das cidades têm risco elevado para a transmissão de dengue, zika e chikungunya. Nessas áreas, foi detectado grande número de residências com a presença do mosquito. E isso, conforme o governo, pode levar ao surgimento de doentes.

O estudo mostra, ainda, que 64 municípios estão em alerta e 19 encontram-se em situação favorável. Outros dois ainda não informaram o levantamento. Em comparação com os primeiros números do levantamento, divulgado em maio pela SES, 12 novas cidades entraram na lista de municípios em situação de risco. Ao todo, 52 municípios estavam em alerta e 19 encontravam-se em situação favorável. Outros 26 ainda não haviam informado o levantamento.

Até sábado (20), Pernambuco notificou 9.597 casos de dengue, com 1.772 confirmações. Isso representa uma redução de 91,1% em relação a 2016. Foram feitos 2.791 registros de chikungunya, com 706 confirmações. A redução é de 95,2%. O estado também notificou 420 casos de zika. A diminuição em relação ao mesmo período de 2016 chega a 96,1%.

Este ano, foram notificados 58 óbitos, com cinco casos descartados e um com resultado positivo para dengue. Os demais estão em fase de análise.

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