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‘Nossa mãe matou o pedófilo que nos abusou, mas não acabou com nossos pesadelos’

Oito anos atrás, Sarah Sands esfaqueou até a morte um pedófilo condenado. Os seus três filhos contam como se sentem agora sobre o crime cometido pela mãe.

Por BBC

Oito anos atrás, a britânica Sarah Sands esfaqueou e matou um pedófilo. Na sua primeira entrevista juntos, os três filhos de Sands contam à BBC News que o pedófilo havia abusado sexualmente de todos eles e descrevem como se sentem agora sobre o crime cometido pela mãe.

Em uma noite de outono de 2014, Sarah Sands saiu do seu duplex no leste de Londres com um capuz sobre a cabeça, armada com uma faca. Ela caminhou até um bloco de apartamentos vizinho, onde morava um homem idoso.

Ao chegar lá, ela esfaqueou Michael Pleasted oito vezes, no que ela própria descreve como “um ataque determinado e contínuo”. Ele sangrou até morrer.

Pleasted tinha 77 anos de idade e era pedófilo condenado. E, na época, ele enfrentava outras acusações.

Ele foi acusado de abusos sexuais contra meninos na região onde morava, no distrito londrino de Silvertown. Legalmente, como ocorre em todos os casos deste tipo, os nomes dos meninos não puderam ser divulgados durante o julgamento.

Mas a BBC News agora pode noticiar, pela primeira vez, que todos os três meninos envolvidos no caso eram filhos de Sarah Sands.

O mais velho, Bradley, tinha na época 12 anos. Em 2021, ele renunciou ao seu direito ao anonimato para revelar o abuso. E, em entrevista à BBC News, seus irmãos gêmeos mais jovens, Alfie e Reece, fizeram o mesmo. Eles tinham 11 anos quando sua mãe matou o homem acusado de abusar das crianças.

Agora jovens adultos — com 19 e 20 anos de idade — eles lembram do momento em que ficaram sabendo, quando ainda eram crianças, o que a sua mãe havia feito. Ao lado dela, eles contam que foi difícil crescer com a mãe na prisão.

Sands afirma sentir remorsos pelo que fez. Mas seus filhos não têm dúvidas sobre o que sentem.

“Eu aplaudi a atitude ela”, conta Bradley à BBC. “Não vou negar isso.”

“Ela realmente fez com que nos sentíssemos mais seguros”, acrescenta Alfie. “Aquilo não diminuiu os pesadelos. Mas nos deu uma sensação de segurança, porque você podia andar pela rua sabendo que ele não iria aparecer de repente na esquina.”

“Ele morava literalmente do outro lado da rua. Eu abria a minha janela e via a casa dele”, conta Bradley.

Reece, que tinha 11 anos na época, diz que é “bom saber que ele está morto”. Mas acrescenta: “muitas vezes nós acordávamos chorando [e perguntando] ‘onde está a mamãe?'”

Meses antes do assassinato, Sarah Sands e sua família haviam se mudado para uma nova casa, também em Silvertown.

Ela fez amizade com Pleasted, que morava sozinho. Ele era uma figura conhecida na região. Muitas vezes, ele se sentava ao lado da banca de jornal do bairro e conversava com os moradores locais e seus filhos.

“Eu achava que ele fosse um idoso simpático”, relembra ela. “Eu cozinhava para ele, cuidava dele e sempre fazia companhia quando tinha tempo.”

Ela conta que Pleasted se aproximou da família, mas que queria na verdade aliciar seus filhos. Um dia, ele convidou os três meninos para visitarem sua casa.

Até que, certa noite, os gêmeos contaram para a mãe que Pleasted os havia abusado sexualmente. E, uma semana depois, Bradley, o mais velho, relatou a mesma coisa. Pleasted foi preso e acusado de abuso sexual.

Enquanto aguardava o julgamento, o juiz o libertou sob fiança e disse que ele poderia voltar para casa. Sands conta que ficou surpresa e desesperada. Para levar seus filhos para longe de Pleasted, ela se mudou com a família para a casa de sua mãe.

‘O mundo inteiro congelou’

Na noite do ataque, Sands foi filmada pelo circuito fechado de TV indo para o apartamento de Pleasted. Ela conta que queria pedir a ele que se declarasse culpado das acusações e poupasse os meninos de comparecer ao tribunal.

“Eu percebi que havia cometido um enorme erro. Ele não sentia nenhum tipo de remorso. Ele disse ‘seus filhos estão mentindo’. O mundo inteiro congelou. Eu tinha a faca na minha mão esquerda e lembro que ele tentou arrancá-la de mim”, relembra ela.

Ela insiste que não pretendia matar Pleasted.

Horas depois do assassinato, ela se entregou em uma delegacia, com a faca e as roupas manchadas de sangue. No julgamento, o juiz afirmou que não acreditava que ela estivesse “pensado racionalmente no que poderia resultar o porte da faca”, mas acrescentou: “tenho certeza de que ela tinha na mente a possibilidade de usá-la”.

Sarah Sands foi condenada por homicídio culposo (não doloso), ou seja, sem intenção de matar. O juiz considerou que ela havia perdido o controle. Ela foi condenada a três anos e meio de prisão, mas sua sentença acabou sendo estendida para sete anos e meio por ter sido considerada branda demais.

Os juízes do Tribunal de Recursos afirmaram que, na noite do crime, ela não fez nada para ajudar Pleasted — nem chamou o atendimento de emergência. Ela passou cerca de quatro anos na prisão.

“Eu havia feito justiça com as próprias mãos”, afirma ela hoje. “Sempre fui criada para assumir a responsabilidade pelos meus atos.”

Sem pai e com a mãe atrás das grades, os meninos foram morar com a avó.

“Ficávamos todos em um quarto. Não havia privacidade”, conta Bradley à BBC. “Minha avó telefonava para minha mãe na prisão e perguntava se eu podia sair e jogar futebol, ou sair com meus amigos. E, muitas vezes, ela dizia ‘não’.”

Alfie conta que os três irmãos “perderam muita coisa”. Eles a viam uma vez por mês nas visitas à prisão. “Às vezes, você só quer contar um problema para a sua mãe e não pode”, diz.

Seus amigos sabiam o que havia acontecido. Mas Bradley afirma que se lembra das pessoas perguntando: “onde está a sua mãe? Nós nunca a vemos por aqui.”

“Eles tinham raiva de mim”, acrescenta Sands. “Antes da prisão, éramos tão próximos e, de repente, eu não estava mais lá. Foi horrível para eles.”

Questionada se sentia remorsos por ter posto fim à vida de Michael Pleasted, ela responde: “com certeza”. Ela acrescenta: “eu trago vida para o mundo. Nunca me ocorreu que eu seria culpada de tirar vida do mundo.”

Mudanças de nome

Durante o processo, surgiu a informação de que, no passado, Pleasted tinha outro nome — Robin Moult — e que havia mudado esse nome depois de ser condenado por pedofilia. Ele havia recebido 24 condenações por abusos sexuais ao longo de três décadas.

Ele fora preso pelos crimes, mas, quando se mudou para seu novo bairro, ninguém ali — nem mesmo as autoridades locais — sabia sobre o seu passado.

Sarah Sands agora faz campanha por restrições mais rígidas aos abusadores sexuais que mudam seus nomes.

A parlamentar trabalhista Sarah Champion afirma que alguns abusadores usam novas identidades para conseguir atestados de antecedentes criminais, que são obrigatórios para certos empregos.

“Depois que mudam seus nomes, eles conseguem uma nova carteira de motorista e um novo passaporte naquele nome”, afirma Champion. “Isso permite que eles consigam um novo atestado de antecedentes criminais.”

“E estamos descobrindo que essas pessoas estão indo para escolas e outros lugares onde há crianças e pessoas vulneráveis”, segundo ela, “usando seus cargos de confiança das formas mais horríveis.”

Um porta-voz do Ministério do Interior britânico afirmou que a questão já foi analisada, mas o Ministério não podia publicar as conclusões porque continham informações confidenciais, que poderiam ser usadas por criminosos para fraudar o sistema. O Ministério afirmou que o Reino Unido tem um dos controles mais rígidos do mundo para lidar com abusadores sexuais em comunidades locais.

A reconstrução da família

Sarah Sands saiu da prisão em 2018. Seus filhos afirmam que conseguiram reconstruir seu relacionamento com ela desde então.

“Ela nos mima bastante”, conta Reece, sorrindo. “É bom, mas nos faz perceber todos os anos que perdemos juntos.”

“Não há nada que vá romper a união da família”, acrescenta Bradley.

Os meninos contam que, quando eram crianças, sentiam culpa por terem revelado o abuso.

“Se todos nós tivéssemos ficado de boca fechada, teríamos tido nossa mãe e teríamos ido fazer compras, ido ao cinema, feito o que um menino normal de 12 anos de idade faz”, afirma Bradley.

Mas eles dizem que entendem hoje que é importante que as vítimas se manifestem. “É difícil, mas as coisas melhoram um dia”, afirma Reece.

“Você deve denunciar sempre”, acrescenta Alfie. “É melhor falar. Se você não falar, só vai ser pior.”

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