Moradores do Holiday se preocupam com a vida fora do edifício após decisão judicial de interdição e desocupação

Por Pedro Alves, G1 PE

Com a determinação da Justiça para interditar o Edifício Holiday, na Zona Sul do Recife, muitos dos mais de 3 mil moradores do local se preocuparam com seu próprio destino após a desocupação dos imóveis. Sem energia elétrica e água encanada desde o dia 5 de março, por causa de um curto-circuito, eles lamentaram a decisão judicial, nesta quarta-feira (13).

Os moradores têm até o dia 20 de março para saírem do local. A interdição do Edifício Holiday foi determinada pela Justiça por causa dos riscos oferecidos pela edificação aos mais de 3 mil moradores do local. O prédio construído em 1956 tem 476 apartamentos distribuídos em 17 andares.

Luzinete dos Santos tem 58 anos e, por mais de três décadas, morou no Holiday. Ela havia ido comprar alimentos e, quando voltou ao prédio, foi pega de surpresa pela determinação da interdição. Emocionada, ela, que mora sozinha no local, afirmou que não sabe para onde ir ou a quem recorrer após ter que sair de casa.

“Eu vivo de Bolsa Família e não tenho recursos. Vim do Sertão da Paraíba morar no Recife e esse prédio sempre foi tudo na minha vida. Estou em choque, porque não tenho como pagar um aluguel e não sei nem onde colocar minhas coisas, que já não são muitas”, afirma.

A comerciante Zelma Cordeiro mora no mesmo local desde os 13 anos de idade. Aos 56 anos, ela lamenta a possibilidade de perder o apartamento onde vive com dois filhos e três netos.

“Já houve muita coisa por aqui, mas essa foi demais. Só Deus sabe o que vou fazer a partir de agora. Se você não tiver uma estrutura, é capaz de enlouquecer. Eu me criei aqui e meus filhos também. É deprimente demais”, declara.

A estudante Patrícia Cabral, de 23 anos, cresceu no Holiday. Ela cursa graduação em Recursos Humanos e, na iminência do despejo da própria casa, se preocupa pelo próprio futuro e daqueles que a viram crescer.

“Metade da população desse prédio me conhece, é como se fosse uma família. Não tenho mais lágrimas para chorar vendo essa situação. Minha avó morou aqui por 45 anos e a minha infância inteira foi no Holiday, faz parte da nossa história. Se interditar, não sei de onde tanta gente vai tirar dinheiro para sobreviver. Sou estudante e estou desempregada. As coisas estão cada dia mais difíceis”, diz.

A comerciante Thayná Martins mora no Holiday há 21 anos, desde que casou e saiu da casa dos pais. O prédio também é seu ambiente de trabalho e ela, que mora no quarto andar com o marido e três filhos, sofre com problemas no coração e tem sentido na pele os efeitos da falta de energia e de água encanada. Para ela, os moradores do local vivem como família.

“É como você perder uma vida. Eu casei e vim morar aqui. O Holiday é aquilo que meus três filhos conhecem como casa desde que nasceram. Eu vivo e trabalho aqui. Se hoje não tiver um almoço, eu sei que vou ali fora, faço uma faxina e consigo algum dinheiro. Se eu deixo meus filhos em casa, sei que os vizinhos vão observar o que eles estão fazendo”, afirma.

Apesar do valor afetivo do prédio para a família, segundo Thayná, o que mais lhe preocupa é o futuro dos três filhos.

“Sou adulta e sei entrar e sair de qualquer canto, mas imagine uma criança, posta assim em outra comunidade. Meus filhos têm mil e um planos e tudo isso pode ser interrompido. Eu olho para os quatro cantos e não vejo solução, só peço a Deus. Um dos meus filhos, uma criança, todo dia abre a Bíblia para ler uma parte aleatória. Agora ele não pode mais, porque nem luz nós temos”, diz.

Além do apartamento onde mora, Thayná aluga uma loja no térreo do prédio, onde a energia, por ser anterior às instalações elétricas das moradias, não foi cortada. Ela vende almoço para sobreviver e teve o comércio prejudicado pelo apagão.

“Eu tinha 50 quentinhas para vender, que fiz na minha casa. Minha geladeira estava cheia de alimentos e material para a produção dos almoços que vendo. Fiquei tão abalada com o curto-circuito que tudo estragou porque eu sequer lembrei que na minha loja havia um freezer funcionando”, declara.

Amiga de Thayná, Aline Araújo, que é comerciante também, mora no 15º andar do Holiday com os três filhos e o marido, em um apartamento alugado. Ela também ficou sem conseguir vender comida e lamenta pela interrupção da rotina dos filhos.

“Estou alimentando meus filhos com a ajuda dos meus amigos. Se não fosse eles, só comeríamos pão com mortadela. Toda a nossa rotina foi interrompida. Não posso contar uma história para os meus filhos, fazer um leite quente, escovar os dentes. Nessa situação, o estresse bate e a gente fica sem ânimo”, afirma.

Ainda segundo Aline, mesmo uma perspectiva de mudança fica cada vez mais distante e o medo pela segurança da família aumenta.

“Hoje, nas comunidades próximas, um apartamento que teria um aluguel mensal de R$ 500 está por R$ 700 porque, sabendo do que está acontecendo no Holiday, os donos aumentaram o valor. Além de tudo, muita gente está usando vela para iluminar suas casas e isso é muito perigoso. Há muitos idosos que não lembram de apagar a chama e isso pode, facilmente, ocasionar um incêndio”, diz.

O casal Junior e Maria do Carmo Silva mora há 11 anos no 12º andar do edifício. Eles dizem que, por causa do calor, quando chegam do trabalho, preferem continuar no térreo da edificação, esperando o entardecer para diminuir o desconforto. O marido, que é barman, anda com uma lanterna para se preparar para a noite no prédio.

“Faz uma semana que estamos procurando outro local para viver, mas está tudo muito caro, ou ocupado, afinal são 3 mil pessoas tentando sair. Nem sabemos como vamos tirar nossos móveis, porque não tem elevador. Eu acho que os órgãos públicos podiam se juntar para não retirar as pessoas. É uma tristeza muito grande”, afirma Júnior.

Entenda o caso

A decisão de interditar e desocupar imediatamente o Edifício Holiday foi proferida pelo juiz Luiz Gomes da Rocha Neto, da 7ª Vara da Fazenda Pública da Capital, em caráter liminar, na terça (12), após uma tutela de emergência requerida pela prefeitura do Recife.

Como o síndico do Holiday, José Rufino Neto, foi intimado nesta quarta (13), o prazo para desocupação começa a contar na quinta (14), sendo encerrado no dia 20 de março.

Caso o prédio não seja desocupado nesse período, a remoção à força dos moradores do local pode ser feita a partir do dia 21 de março, com apoio dos agentes de segurança estaduais e municipais, conforme solicitado pelo magistrado.

Desde o início de março, o prédio está sem luz e água. A falta de energia foi provocada por um curto-circuito no sistema da edificação. Por causa disso, mais de 90 famílias deixaram os imóveis, nesse período, aumentando o problema da falta de recursos no condomínio. A inadimplência chega a 80%, segundo moradores.

Diante dos problemas diagnosticados do Holiday, os moradores enfrentam dificuldades. No prédio, existem idosos e pessoas com dificuldades de locomoção. Sem energia, os elevadores estão parados e alguns moradores passaram a usar velas, o que amplia o risco de incêndio nos apartamentos.

De acordo com a Celpe, a luz será restabelecida no prédio apenas quando as correções necessárias no sistema elétrico do edifício forem realizadas.

O governo estadual informou, na terça-feira (12), que pretende fazer um cadastro dos idosos que moram no Holiday para tentar ajudá-los e enviou equipes da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco até o prédio para fazer um levantamento sobre a situação dos idosos.

A Secretaria de Direitos Humanos do Recife informou que tentou levantar o perfil dos moradores que precisam de auxílio, mas os fiscais não tiveram a entrada permitida pelos moradores.

Inquérito e protestos

Em fevereiro, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) instaurou um inquérito civil para investigar as condições de habitabilidade do Edifício Holiday, que apresenta riscos aos moradores e frequentadores.

Os técnicos da Celpe estiveram no local duas vezes para efetuar o corte de energia no prédio, mas foram hostilizados pelos moradores. A companhia prestou queixa na polícia sobre o ocorrido. Durante um carnaval, um problema elétrico deixou o prédio sem energia.

Em um protesto ocorrido na sexta (8), moradores exigiram reparos à Celpe. A concessionária informou que a energia será restabelecida quando o condomínio fizer as correções no sistema elétrico e houver segurança.

Na segunda (11), o Corpo de Bombeiros afirmou que a situação de habitabilidade no Edifício Holiday “chegou ao limite” e que o prédio oferece riscos aos moradores.

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