Indigência impede luto e homenagens a pessoas sem identificação em cemitério do Recife

Por Marina Meireles, G1 PE

 

No Cemitério Parque das Flores, na Zona Oeste do Recife, os túmulos com a grama verde e o colorido das flores – reais ou artificiais – parecem tomar toda a área da necrópole. Por entre os túmulos, caminham mães, pais, irmãos, sobrinhos, tios e amigos de quem já se foi. Há, no entanto, uma área destinada aos mortos sem identificação, que, nem mesmo nesta quinta (2), Dia de Finados, têm a chance de serem homenageados pelos que permanecem vivos.

Nos 13.500 metros quadrados do cemitério destinados à indigência, não há lápides, ornamentos ou lembranças de entes queridos. Há somente terra árida que, mesmo seca, faz brotar mato em abundância. Em alguns pontos, as folhas chegam à altura dos joelhos e precisa ser capinado mensalmente para minimizar o abandono de quem jaz ali.

De acordo com a Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), o Parque das Flores é o único cemitério da capital pernambucana a receber indigentes, que entram nessa categoria em três diferentes casos. “Eles vêm para essa área quando morrem e não têm documento de identificação e ninguém busca o corpo, ou quando são recém-nascidos ou natimortos e a família, por questões afetivas, não quer se envolver com o enterro. Tem também os casos em que as pessoas são identificadas, mas os parentes não vêm ou não têm condições de arcar com o enterro”, explica a gerente do cemitério, Ione Maria.

O espaço que comporta 18 quadras tem capacidade para receber até 2.160 corpos anualmente, mas, com os cerca de 40 casos de indigência registrados mês a mês, a marca não chega a ser atingida. Em um universo de 50 sepultamentos diários de pessoas identificadas, o número parece ser inexpressivo, mas cada um dos óbitos representa alguém que perdeu, além da vida, a chance de receber carinho póstumo da família, de amigos ou de amores.

Segundo o diretor administrativo e financeiro da Emlurb, Adriano Freitas, os gastos com a indigência não ultrapassam os R$ 15 mil mensais. De acordo com ele, o município arca com os custos do funeral – sem a emoção de um rito para prestar condolências a quem partiu. O procedimento consiste na negociação com a funerária e a condução do corpo até a necrópole. Já o estado fica responsável pelo sepultamento, que consiste na abertura da cova e no depósito do caixão no interior do espaço, sem ar de despedida.

Uma vez lá, perdem-se a história, a memória e os laços afetivos certamente criados em vida. “Muitas pessoas vêm ao cemitério em datas como o Dia das Mães e o Dia dos Pais, mas aqui, não vem ninguém visitar”, comenta Freitas. Há, somente, pessoas fazendo caminhada pela área, alheias, sem conexão ou sentimento de luto por quem está ali.

Os primeiros registros da indigência

Os registros mais antigos do Parque das Flores são de 1989, mas o número 6.648, indicado na primeira linha do primeiro livro, dá margem para acreditar que os registros tiveram início há mais tempo. Em cada página, não é difícil encontrar as indicações de identidades desconhecidas que tiveram o óbito registrado lá.

Além dos livros, há fichas de registro de cada um dos óbitos. Em alguns dos casos, há cópias de cédulas de identidade grampeadas à certidão de óbito, que representam o primeiro passo para identificar quem foi enterrado ali. Entretanto, o processo não é tão simples por uma série de razões. “Às vezes a pessoa é de outro estado e morreu aqui, ou perdeu contato com a família, ou morava na rua, ou tinha vício em drogas e não via mais a família”, enumera a gerente do Parque das Flores.

Menina Sem Nome

Há, no entanto, um símbolo da indigência no Recife, que recebe homenagens praticamente diárias. Morta em 1970, na Praia do Pina, na Zona Sul da capital pernambucana, a Menina sem Nome é quase uma santidade aos olhos dos visitantes, que depositam flores, brinquedos e doces em seu túmulo, no Cemitério de Santo Amaro, no Centro, na esperança de alcançarem graças ou de demonstrarem gratidão pelas que já foram conquistadas.

O fato de o corpo ter sido encontrado com sinais de violência motivou a criação de várias versões sobre a morte da criança ao longo dos anos. De acordo com uma pesquisa acadêmica feita em 2009, no Recife, a curiosidade e o mistério que envolvem o caso são alguns dos ‘atrativos’ para os visitantes, que lotam o espaço a cada Dia de Finados.

O diretor administrativo e financeiro da Emlurb, Adriano Freitas, afirma que o túmulo é um dos mais visitados do Recife. “Os brinquedos deixados para a Menina sem Nome são todos recolhidos e doados a instituições de caridade. As pessoas deixam muitos presentes sempre que vão”, comenta, ressaltando o volume de agrados e, consequentemente, o contraste entre o luto demonstrado pela garota e a ausência de qualquer sentimento dedicado aos outros tantos que são esquecidos depois da vida.

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