Guerra Fria na Síria entre EUA e Rússia

Cresce o temor de que a guerra na Síria leve o mundo para dentro do mais mortal conflito dentre aqueles chamados, há quatro anos, de Primavera Árabe. As últimas movimentações da Rússia, bombardeando, além de postos do Estado Islâmico (EI), grupos rebeldes apoiados pelos EUA, deixam as duas potências militares em um clima de tensão, acusações e desconfiança, que lembra o protagonizado entre os comunistas e capitalistas durante a Guerra Fria (1947 – 1991).

Teoricamente, os dois, apesar da divergência sobre a permanência do presidente Bashar al-Assad no poder, têm um único objetivo: destruir postos do EI, apoiado em território sírio pelos terroristas da Frente al-Nusra. Mas a acusação dos americanos é a de que os bombardeios atingem também rebeldes opositores de al-Assad, muitos deles treinados pelos EUA.

“As ações russas se enquadram no já histórico apoio de Moscou a Damasco, uma vez que a Síria possui importância estratégica para a Rússia”, analisa o consultor do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e da Organização das Nações Unidas, Fernando Luz Brancoli. Além disso, ele alerta que existe o receio de que separatistas islâmicos chechenos possam se armar ou treinar na região, o que representaria uma ameaça ao Estado russo.

“As ações dos EUA possuem um caráter e um escopo limitado, uma vez que, apesar de efetivos em ataques centrados, a falta de tropas em solo não permite a ocupação do território sírio”, destaca ele, sem ver um fim próximo para a guerra que já deixou mais de 7 milhões de deslocados dentro do próprio território e aproximadamente 4 milhões de refugiados, principalmente, em países vizinhos e na Europa. Para os especialistas em conflitos internacionais, o avanço russo poderá, em vez de enfraquecer, aumentar o número de combatentes do Estado Islâmico.

A partir do momento que a oposição moderada ao regime al-Assad for sendo bombardeada e suas posições destruídas, o que acontecerá, certamente, não é o arrefecimento da oposição ao presidente, mas a ida destes quadros para a luta em linha com o EI, afirma o consultor de geopolítica e especialista em Oriente Médio, Jerome Carson. O estudioso inglês defende ainda que a questão síria não pode ficar polarizada entre EUA e Rússia, com ainda vários grupos rebeldes, facções terroristas e o exército do país lutando pelo controle de partes do território. “A Europa precisa se envolver também. Não aprofundando o caos, com bombardeios e mais repressão, mas na questão humanitária, lidando com o fluxo de migrantes e refugiados”.

Por mais que seja questionada e criticada, a repentina decisão de ataque do Vladimir Putin, que avisou aos americanos apenas uma hora antes do primeiro míssil ser lançado, os especialistas mostram que a solução americana também não é a mais acertada. “Atualmente, não é possível se pensar no fim do conflito sem Assad no poder(como quer os EUA), principalmente pela ausência de atores com legitimidade interna e externa que possam substituí-lo”, afirma Brancoli. Enquanto isso, a população sofre com 80% vivendo na pobreza e expectativa de vida reduzida em mais 20 anos – de 79,5 anos em 2010 para 55,7 em 2014. Em editorial divulgado na última terça-feira, o jornal americano The New York Times analisou o quão confuso é o tabuleiro em que Barack Obama e Vladimir Putin estão envolvidos, e a dificuldade em traçar os próximos passos do presidente americano e, principalmente, do seu homólogo russo.

“Se os EUA e seus aliados têm falhado tanto para criar uma frente de oposição viável ou para erradicar o EI não é só por causa do esforço limitado, mas também pelo emaranhado de grupos insurgentes, com alianças sempre mutáveis”, diz o jornal. Afirma também que o quadro atual oferece apenas uma “série de más escolhas” e nenhuma possibilidade de solução concreta no curto ou médio prazo.

omacho

 

Jornal do Commercio

Marcos Oliveira

Caderno: Mundo

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