Classificada para Tóquio-2020, Érica Sena elenca motivos para crer em medalha olímpica

Por Marcelo Sá Barreto — Recife

Globo Esporte

Em meio a tantas perguntas, questionamentos diários, ter respostas é essencial para seguir em frente. Desafios doídos, incertezas, duelos idealizados antes mesmo de encarar as pistas. A marchadora Érica Sena lança olhares na casa do vizinho. Como estão? Faz parte. Motivar-se é necessário para cumprir desafios. Mais ainda o maior deles, do outro lado do mundo.

– Mesmo cansada, você termina os treinos, porque você sabe que são esses treinos difíceis que te fazem mais forte – arremata, no vídeo acima, com dose extra de cansaço, ofegante, em mais um dia de trabalho cumprido. Faltam outros tantos.

Erica Sena passa pela fita, em prova da marcha atlética, no México — Foto: Divulgação

Erica Sena passa pela fita, em prova da marcha atlética, no México — Foto: Divulgação

A conquista do índice para Tóquio-2020, o primeiro do atletismo brasileiro, é ponto de partida de uma meta audaciosa dessa pernambucana, de 33 anos, expoente maior da marcha atlética nacional. Ao bater a marca classificatória com a vitória, no último dia 24 de abril, numa das etapas de challenger do esporte, no México, Érica Sena projetou um futuro pródigo. Com clara possibilidade de fazer história nos jogos nipônicos. Com outras experiências na bagagem, sobram motivos para fechar o ciclo com o tão sonhado pódio.

Se no íntimo a atleta esbanja confiança, razões técnicas balizam o projeto. Uma delas, a rodagem na marcha atlética. Em outra frente, os resultados dos últimos anos confirmam a onda positiva. Vale somar a arquitetura bem elaborada, amparada em investimentos necessários para chegar na frente – coisa de quem trocou o Brasil pelo Equador e vai muito bem, obrigado.

Erica Sena, entre o cansaço e a alegria, no challenger realizado no México — Foto: Divulgação

Erica Sena, entre o cansaço e a alegria, no challenger realizado no México — Foto: Divulgação

Para finalizar, as provas de alto nível pré-Jogos permitem disputas pegadas, definidas apenas no fim. Numa perspectiva simples de projeção, quanto mais duras as competições, mais bem preparada Érica Sena vai chegar a 2020. Sim, a missão medalha é possível.

Érica é a atual primeira do ranking internacional da Marcha Atlética. Isso é bom, mas, de modo algum, definitivo. Daqui para o Japão, há uma provável dança das cadeiras em percurso. É natural, até pelos diversos eventos marcados, cujas dificuldades têm poder de fragmentar resultados e, consequentemente, criar um sobe e desce intenso na classificação. Nada para assustar.

Erica Sena exibe medalha de ouro na marcha atlética, em challenger do México — Foto: Divulgação

Erica Sena exibe medalha de ouro na marcha atlética, em challenger do México — Foto: Divulgação

Com quilometragem de sobra, Érica avalia, nos dias atuais, situações como essa com maior intendimento – e menos drama. Ideal é chegar bem no Japão, entre as oito melhores do mundo, como tem ocorrido nos últimos anos. Na hora da verdade, é mandar ver. Colocar tudo em prática. Com a confiança e a segurança necessárias.

– Ter me classificado é muito bom. Fui a primeira do atletismo brasileiro a fazer o índice. Fica aquela emoção. Pela marca que a IAAF fixou, tinha certeza que ia fazer. Tenho um nível superior a esse índice. Não seria um problema fazer o índice. Liderar o Challenger também não significa muita coisa. Faltam muitas provas – define.

Longe de Pernambuco há oito anos, Érica está ambientada em Cuenca, no Equador – cidade a 2.500 metros de altitude. Ao lado do marido e treinador, Andrés Chocho, tem a oportunidade de usar uma estrutura sólida na caminhada. Enquanto por aqui atletas sofrem com a falta de investimento no esporte, Érica encontra o equilíbrio necessário para trabalhar o ciclo olímpico.

A vida em Cuenca é tranquila. Foi – e continua sendo – positiva em vários aspectos. Andrés Chocho é medalhista pan-americano, num país com identificação sobrecomum com a marcha atlética.

Ele é companheiro diário de treino de Érica, com o lucro de ser filho de Luís Chocho, treinador da lenda equatoriana da modalidade Jeferson Peres, dono de um ouro em Atlanta-1996 e de outros três mundiais. Conhecimento aplicado, de peso, a serviço da pernambucana.

Erica Sena com Andrés Chocho, marido e treinador — Foto: Arquivo Pessoal

Erica Sena com Andrés Chocho, marido e treinador — Foto: Arquivo Pessoal

Erica Sena e Andrés Chocho em momento de lazer — Foto: Arquivo Pessoal

Erica Sena e Andrés Chocho em momento de lazer — Foto: Arquivo Pessoal

Sem patrocino privado, mas com apoio substancial de bolsas federal (Bolsa Pódio) e estadual (Time Pernambuco) – mais Comitê Olímpico, do COB -, a infraestrutura à disposição de Érica atende às questões técnicas e fisiológicas. Em Cuenca, tudo é pertinho. Tem pista de primeira, mais um centro de recuperação e fisioterapia com nível compatível ao programa.

No Início, a adaptação a Cuenca foi complicada. A cidade está localizada muito acima do nível do mar – ao contrário do Recife, situado numa planície. Se lá atrás Érica chegava a passar mal, pelo ar rarefeito, hoje tem na questão geográfica uma aliada. Aí entra a fisiologia. Ao treinar a mais de dois mil metros de altura, a marchadora produz mais glóbulos vermelhos e massa de hemoglobina. Para especialistas, a circunstância é essencial na melhora no condicionamento físico.

Muitos são submetidos aos trabalhos na altitude em períodos específicos, para competir com toda força, no nível do mar. Érica é exposta à particularidade todos os dias. Vale tudo por uma medalha olímpica.

– Chance de medalha todas as últimas finalistas têm. Existem atletas que já vêm há muitos anos, como eu, sendo finalistas de grandes eventos, Jogos Olímpicos, Mundiais. São as oito ali na frente. Estão sempre comigo. Nos últimos grandes eventos, fiquei em quarta, no Mundial de Marcha e no Mundial de Atletismo. Em Tóquio não vai ser diferente. Estarei ali, na frente. Dessa vez pode vir.

Como parâmetro final – ou premonição -, Érica Sena tem em mente o Mundial de 2015. Ela considera a estratégia adotada na prova como “louca”. No fim, chegou na sexta posição, embora as expectativas fossem bem menores. A diferença de antes para agora é saber como ir. Seguir fundo, ao lado do aprendizado dos últimos quatro anos.

– Com a experiência de hoje, jamais usaria, por exemplo, a mesma tática de 2015. E isso vai me ajudar em Tóquio – conclui.

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