Brasil tem mais de 4 mil suspeitas de alterações devido à zika e apenas 391 confirmações em 2017; entenda o motivo

Por Carolina Dantas, G1

 

Especialista observa exame de imagem de um bebê com microcefalia em hospital do Recife, em foto de 26 de janeiro de 2016 (Foto: Reprodução TV Globo)Especialista observa exame de imagem de um bebê com microcefalia em hospital do Recife, em foto de 26 de janeiro de 2016 (Foto: Reprodução TV Globo)

Especialista observa exame de imagem de um bebê com microcefalia em hospital do Recife, em foto de 26 de janeiro de 2016 (Foto: Reprodução TV Globo)

Desde de que os casos de zika e microcefalia explodiram no Brasil, a confirmação da relação entre a malformação e o vírus ocorreu em 20% das suspeitas enviadas ao governo. Neste ano, a taxa é de 9,3% — são 4.221 notificações e 391 confirmações. O que dificulta que seja confirmado o diagnóstico das alterações no crescimento e desenvolvimento causado pelo vírus da zika?

De acordo com o Ministério da Saúde, já é esperado que as investigações levem um certo tempo para serem concluídas. Deve-se considerar que diversos exames precisam ser feitos para a efetividade do diagnóstico, incluindo de imagem e laboratoriais.

 (Foto: Arte/G1)

(Foto: Arte/G1)

Sequência ideal

Os médicos Antonio Bandeira, coordenador do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia, e Marco Aurélio Palazzi Sáfadi, da Sociedade Brasileira de Dengue/Arboviroses explicam que, para garantir uma confirmação de que as alterações no crescimento e desenvolvimento normal do bebê foram causadas definitivamente pela zika é necessário um conjunto de informações e, às vezes, um cenário ideal.

O primeiro passo para a detecção da influência do zika durante a gestação é o diagnóstico de que a mãe realmente foi infectada. Para isso, a mãe precisa desenvolver os sintomas e, então, fazer os exames necessários — sorológico e molecular (chamado de PCR).

“Se você tem a informação durante a gravidez, já no momento em que a mãe está com o vírus, é mais fácil. Mas, muitas vezes, a infecção é silenciosa e não tem sintomas”, diz Sáfadi.

Depois, caso a infecção seja detectada, é preciso acompanhar o crescimento do feto e seu desenvolvimento. O ultrassom pode ajudar a ver se há algum problema. Os médicos chamam a atenção para a importância do pré-natal.

“O médico obstetra acompanha as medidas do bebê, como o padrão para crescimento, o desenvolvimento do Sistema Nervoso Central, assim como alterações dentro do crânio. Esse acompanhamento é feito uma vez por mês. Em uma criança que vai até o final da gestação e não apresenta nada disso, é muito pouco provável que tenha sido afetada pelo zika”, explicou Bandeira.

As dificuldades

Como aponta Sáfadi, muitas vezes a mãe é assintomática — é infectada pelo zika, mas não sentiu uma febre que seja. A suspeita vai surgir, muitas vezes, quando o vírus nem está mais no organismo da gestante, mas só quando o bebê passa a apresentar as malformações.

Sem a possibilidade de fazer o teste em PCR e/ou sorologia e confirmar a infecção durante a gravidez, surgem diversas possibilidades: existem outras doenças que causam as mesmas alterações no feto, como a sífilis, a toxoplasmose e a infecção por citomegalovírus.

“A gente sabe que a microcefalia pode ter várias causas. As possibilidades são muito variadas. Outros casos têm a ver com malformações congênitas, hereditárias, e outras situações têm a ver com outras infecções como sífilis”, avalia Bandeira. O médico diz, no entanto, que o número dos casos de microcefalia aumentou muito após o início da zika, e que não se pode acreditar que o índice inferior de confirmações está inteiramente ligado a outras doenças.

“Uma coisa eu garanto: são 4 mil suspeitas neste ano, com certeza não é outra causa que está por trás disso. Um número bastante significativo é zika”, diz.

A importância do cordão umbilical

Se o bebê nasceu sem a realização das etapas anteriores (detecção do vírus na mãe e o pré-natal) — cenário comum em algumas partes do país –, os médicos chamam a atenção para a importância de detecção do vírus no momento do nascimento.

“É um momento oportuno para você colher o exame. Mesmo assim, a amostra pode não ser conclusiva. Nem sempre a coleta do cordão umbilical vai conseguir identificar o vírus”, explica Sáfadi.

Bandeira lembra que, mesmo que os exames sejam feitos na mãe e no bebê, na gestação e no cordão umbilical, muitos estados não têm acesso ao PCR, apenas à sorologia. Segundo ele, o molecular é mais preciso e seguro, enquanto a sorologia pode dar um “falso positivo” ou não acusar o vírus.

“A grande maioria dos casos não vai ter uma confirmação, mas terão o zika. Por questões também de infraestrutura, que o próprio Ministério deveria estar equipando”, questionou o infectologista.

“Você não precisa liberar o teste molecular em todas as maternidades do Brasil. Mas você pode ter um sistema de coleta, armazenamento do material e envio para um laboratório central público que faça o teste molecular em cada estado”.

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