Aplicativo criado por estudantes conecta ciclistas para pedaladas conjuntas no Grande Recife

Por Pedro Alves, G1 PE

Os passeios conjuntos de bicicleta têm sido comuns no Grande Recife, especialmente entre quem usa o meio de transporte, mas se preocupa com os riscos. Pensando nisso, estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) desenvolveram um aplicativo para celulares, o Biciflow, que conecta ciclistas da capital e Região Metropolitana, para incentivar a pedalada conjunta.

Na prática, o Biciflow permite que pessoas cadastrem rotas e pontos de encontro, junto com datas e horários. Esses trajetos ficam visíveis para outros usuários, que podem participar da pedalada junto com a outra pessoa, ou criar seu próprio caminho. É como uma rede social voltada inteiramente para a prática do ciclismo. Ainda em fase de testes, o app está disponível para dispositivos com o sistema operacional Android e, em breve, deve ser liberada para iOS.

A capital pernambucana tem registrado casos de violência contra ciclistas. No dia 30 de setembro, o advogado Flávio Mendes de Amorim, de 47 anos, foi morto durante um assalto, enquanto pedalava com a esposa e uma sobrinha, no Parque das Esculturas, na Zona Sul. Menos de mês antes, um grupo promoveu uma pedalada na Zona Norte da capital pernambucana para protestar contra o índice de assaltos a ciclistas na região.

Estudando Ciência da Computação no Centro de Informática (Cin) da UFPE desde 2012, o estudante Igor Matos, um dos idealizadores do projeto, começou a usar a bicicleta como meio de transporte em 2015, quando entrou em um grupo de pedaladas noturnas. Além dele, participam do projeto Luís Henrique Delgado e João Paulo Luna, todos colegas de classe.

Ao ver que inúmeros amigos se locomoviam, de fato, pedalando durante o dia, Igor largou de vez os transportes motorizados para sair de Olinda, onde mora, até a UFPE, na Várzea, Zona Oeste do Recife, onde ele estuda. Foi aí que se deparou com os inúmeros problemas enfrentados pelos ciclistas no Grande Recife.

“Existe uma falta de estrutura física muito grande e pouca vontade do poder público de implementar o Plano Diretor Cicloviário, aprovado desde 2014. Além disso, existe a falta de respeito dos motoristas. Em maio deste ano, por exemplo, fui atropelado na entrada de Olinda. O motorista passou pela minha bicicleta duas vezes e conseguiu fugir. O que eu mais sofro, no trânsito, é ‘fino’ dos carros”, explicou.

A ideia de desenvolver o aplicativo surgiu, segundo Igor, de uma cadeira de empreendedorismo oferecida na UFPE. “Usamos a ideia do app na cadeira e tivemos um feedback muito bom. Havia um prêmio na categoria de inovação e fomos selecionados. Acabamos deixando de lado o projeto por causa das obrigações do dia a dia, mas com a apresentação em Brasília, a ideia tomou fôlego”, explicou.

Segundo João Paulo Luna, em 2017, o projeto foi escolhido para ser apresentado em Brasília, por meio do Fundo Socioambiental Caixa. A partir daí, o grupo foi escolhido para receber um financiamento e contratar outros desenvolvedores para tirar o projeto do papel.

“Recife tem um dos piores trânsitos em horário de pico do país, mas tem muito potencial para transportes alternativos. É preciso experimentar esse passeio, enxergar a cidade por um outro ângulo, que não seja o do carro”, disse Luiza Lima, especialista em Mobilidade do Greenpeace.

“Desde a concepção, já tivemos mais de 20 pessoas na equipe, até que algumas foram saindo e restou apenas nós três. Apesar disso, o projeto ficou mais forte ainda depois do financiamento. É uma causa pela qual tenho muita empatia. Estamos tendo a oportunidade de ligar várias pessoas que abraçam não só a ideia do ciclismo, mas uma série de outras iniciativas que estão promovendo uma mudança na sociedade”, afirmou João.

Especialista em mobilidade urbana do Greenpeace, a engenheira florestal Luiza Lima considera que, seguindo a tendência do Brasil, a infraestrutura recifense prioriza o transporte individual motorizado, o que dificulta a locomoção de quem não tem ou prefere não usar o carro. Apesar disso, a capital pernambucana, para ela, acumula grandes potenciais para o desenvolvimento de transportes alternativos.

“Existe o acúmulo de carros na rua, o que eleva a emissão dos gases danosos ao meio ambiente e, consequentemente, o desgaste das pessoas. O transporte público, no Recife, é deficiente e pouco acessível para a população, e ainda soma-se aos problemas de infraestrutura para o transporte a pé e de bicicleta. Por outro lado, a cidade é plana e, embora o clima seja quente, existe um vento muito favorável ao desenvolvimento de outras formas de se locomover, sem automóveis”, explicou Luiza.

Aos poucos, segundo o grupo, a ideia é aumentar as funcionalidades do Biciflow, utilizando os feedbacks recebidos pelos ciclistas e pelos próprios desenvolvedores.

“Atualmente, é possível ver os perfis dos ciclistas, mas sem informações, até por questões de segurança. No futuro, pessoas de associações de ciclismo vão ter selos. Haverá grupos fechados para quem preferir e rotas para mulheres, para tentar evitar a vulnerabilidade”, complementa Igor.

“A falta de estrutura é muito grande, mas dá para usar a bicicleta no dia a dia. Apesar disso, eu sempre pensava que, se tivesse companhia, iria para mais lugares de bicicleta. Muita gente não pedala no dia a dia porque não se sente confortável, o que não ocorre quando elas andam em grupo. Queremos criar grupos de lazer, trabalho, escola, e aos poucos ir aumentando os usos da bike”, explicou Igor.

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